Reino de Kakhabad

Kakhabad é uma vastidão selvagem, perigosamente incivilizada. Pouquíssimos pontos de civilização podem ser encontradas ao longo do seu território, a maioria composta por pequenos vilarejos de pessoas rudes, fortes e sempre em vigilância. A única grande cidade nessa terra é a capital do reino conhecida como Kharé, o Porto dos Ardis. Kakhabad é povoada por ladrões e párias escorraçados do restante do mundo, monstros e criaturas vorazes como os besouros Baddu de Baddu-Bak e os Snattacats da Floresta de Snatta, além de diferentes culturas inumanas caóticas, como diferentes etnias Orcs e Goblins, os gananciosos Homem-Cavalo da planície de Baddu-Bak e os brincalhões Elvins das Montanhas Shamutanti.

A única coisa que define Kakhabad como um reino é sua localização geográfica isolada e enclausurada; as Montanhas Cloudcap de Mauristatia e os Picos Zanzunu, lares de antiquíssimas raças aéreas como os Homem-Pássaro e os Ladrões de Vida, separam essa terra selvagem do resto do mundo civilizado. As Montanhas Shamutanti, no sul do Reino, são reconhecidamente o local menos perigoso de Kakhabad – apesar disso não significar muita coisa. Essa área enorme é repleta de florações e depressões rochosas quase sobrenaturais, cortadas por rios de corrente rápida e mortal, além de colinas e morros esculpidos por uma natureza incomum. Bosques e florestas podem ser encontrados ao longo de toda a região, dividindo espaço com alguns raros bolsões de civilização esparsamente distribuídos. Ao longo das Montanhas Shamutanti, um viajante pode se deparar com pequenas comunidades humanas entrincheiradas em locais de difícil acesso, tribos selvagens de Caçadores de Cabeças, e também os brincalhões e mágicos Elvin. Histórias orais passadas através das gerações mencionam grandes horrores habitando as regiões mais ermas das Montanhas Shamutanti, mas nenhum Aventureiro em sã consciência avistou tais lendas.

Algumas poucas expedições comerciais conseguem atravessar por terra essa região acidentada e abandonada até atingirem a cidade maldita de Kharé. A imagem sinistra da cidade, avistada por bravos viajantes em busca de um lugar seguro, é de altíssimas torres, abóbadas e muralhas de rocha firme. A arquitetura de Kharé é tão deturpada e sinistra quanto Shamutanti; talvez, pela disponibilidade de melhores materiais – rocha ao invés de madeira – os pedreiros e marceneiros conseguiram erguer altíssimas e pesadas construções, elevando-se sobre seus cidadãos da mesma maneira que um humano eleva-se sobre um cãozinho. A capital de Kakhabad é cortada pelo Rio Jabaji, que segue por muitas milhas até finalmente desembocar ao sul, no Mar de Kakhabad. Os viajantes mais atentos conseguirão notar a presença perturbadora e quase permanente de urubus e outras aves de rapina sobrevoando a cidade, mas vozes paranoicas também falarão de gárgulas à espreita. No verão, diz-se que é possível sentir o cheiro de carcaça em decomposição sendo exalado da cidade há alguns quilômetros de distância.

O nome dado a Kharé – Porto dos Ardis – se deve ao estado calamitoso de violência que permeia a cidade. Seus moradores aprenderam há muito tempo a se defender da escória pirata e bandida que diariamente aporta na cidade: tornaram-se exímios construtores de armadilhas e ciladas diversas. É tão comum ser emboscado nas vielas perpetuamente escuras da cidade como ser morto por um dardo envenenado ao entrar em um casebre abandonado. Existe uma linguagem própria em Kharé que apenas os cidadãos entendem: pinturas e símbolos estranhos estão espalhados para onde quer que se olhe, indicando quais lugares são – ou foram – seguros. O viajante que consegue cruzar a cidade em segurança se depara com as Baklands, uma vastidão estéril quase interminável, onde diz-se que os processos da natureza foram pervertidos pelo próprio Caos. O passar do dia e noite nas Baklands é estranho, assim como o clima e geografia do lugar. Não é raro que faça sol por semanas seguidas, para subitamente se por e dar lugar a uma lua que cruza o céu numa noite de poucas horas. É uma terra de árvores retorcidas, fósseis de rios que há muito secaram e completamente desconhecida: nenhum dos cartógrafos de Analand conhece essa região, pois ninguém nunca a atravessou. Sabe-se apenas de civilizações não humanas nômades, rudes e ferozes, que sobrevivem por meio da violência e subjugação.

Rumores em Kharé falam de uma antiquíssima ruína abandonada, numa localização perdida entre o Lago Lumlé e as Baklands, no extremo noroeste de Kakhabad. Fala-se que é o Templo de Throff, a Deusa da Terra e de todos os Anões, mas as circunstâncias que levaram a esse abandono há muito foram esquecidas. Outras lendas e cantigas já sem sentido falam das lendárias minas que uma vez já residiram na Costa Sulistas do Fim do Mundo, em Kakhabad. Daddu-Ley e Daddu-Yadu se perderam ao longo da história sem se saber os motivos reais. A primeira foi a maior colônia de mineração da história da região, fundada provavelmente por anões e que trouxe muita prosperidade para uma Analand ancestral. Daddu-Ley eventualmente foi abandonada após um massacre promovido por invasões de Ogres do Caos, provenientes de um país bárbaro já sem nome. Daddu-Yadu, também em algum lugar da Costa do Fim do Mundo – e provavelmente próxima das Desolações de Vanti-Bak – também foi o lar de operações dos Anões em tempos imemoriais. Os próprios Anões já não sabem o motivo do abandono dessas minas, porém, pode-se ter alguma pista sobre isso em sua língua materna: no dialeto Anão, o nome desse complexo de cavernas lendário pode ser traduzido em algo como “Cavernas Coachantes”.

Pouco se pode falar do restante de Kakhabad, pela profunda falta de conhecimento dos sábios de Analand. A Floresta ou Selva de Snatta é lar de uma raça de felinos perigosíssimos da qual nada se sabe ou se tem registrado, os Snattacats. Para além, sabe-se de uma sociedade ancestral de Goblins que reside nos Pântanos Vischlami, e que só temos conhecimento por histórias desconexas. O Baixo e o Alto Xamen são territórios do qual também não sabemos absolutamente nada. Podem ser avistados desde muito longe, ainda nas Baklands, e são perpetuamente guardadas pelos Homem-Pássaro leais ao Arquimago. Provavelmente é a terra mais perigosa de todo o mundo, pois é inexoravelmente intransponível.

Num dia claro de outono, sem nuvens e com o ar mortalmente parado, as lendas dizem que com bastante esforço, o sangue de um observador atento nas Baklands irá congelar nas próprias veias ao conseguir definir as perversas silhuetas das torres da Fortaleza de Mampang.

A descida final até Kharé, o Porto dos Ardis, por uma estrada desconhecida das Montanhas Shamutanti. Autor e época desconhecidos.

Reino de Kakhabad

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